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Memórias de uma ararinha

       O céu nos era o limite.

       O celeste de nossas penas em perfeita sintonia com seu tom único de azul, se destacando quando cruzávamos a frente de alguma nuvem alva. Cortávamos a brisa com maestria, assim como fazíamos com a jatrofa.

      Solteiras, voávamos ligeiros rumo aos muros de barro torcendo para encontrar nosso grande amor. Partilhávamos voo sobre as águas do São Francisco. Esperávamos aquela época onde nos amaríamos com maior intensidade e logo depois, aguardaríamos impacientes pelo crack que anunciaria um novo ponto azul entre nós: um filhote.

        Sinto falta de quando éramos livres.

     Grasnar no topo de alguma árvore. Pousar ligeiro contra um galho instável e lutar pelo equilíbrio, torcendo que o vento não corresse mais forte e tivéssemos que levantar voo. Sentir a terra e as folhas secas entre nossas garras, olhando atento ao chão em busca de castanhas. Partir para cima de quem quer que fosse que se atravesse a invadir nosso território.

     O vento no bico. Nos olhos. Nas costas. Tremulando nossas caudas. Zunindo em nossos ouvidos. Sustentando-nos no ar.

        A natureza era inexplicável.

        Isso tudo ficou na memória.

      Os filhotes, que antes nos traziam alegria, passaram a ser indesejados, não queríamos sofrimento para mais de nossa espécie. A liberdade e o regozijo sumiram aos poucos, deixando para trás o medo e a tensão. Descer ao chão tornara-se algo impossível e sempre que algum fazia, os homens o apanhavam. Nossas casas foram tombadas por grandes máquinas de metal tantas vezes; consumidas pelo fogo, outras mais.

       No céu não se viam mais do que três de nós em um voo conjunto.

       Estávamos morrendo.

       Estamos.

    Agora, por entre as grades que me prendem num cubículo com poleiros e uma bandeja onde me servem alimento, eu observo o céu. Ele está negro, irá desaguar logo mais; me pego agradecendo por isso, pois mesmo que fosse eu uma arara livre, não bateria asas no dia de hoje.

       Ouvi mais cedo que não existimos mais além da reserva.

       Então não é chuva o que vai cair. Serão lágrimas.

       A natureza sente nossa falta.

       Não podemos sair daqui, então, por favor, digam a ela que nós também sentimos.

 

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